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Em recente trabalho de pesquisa realizado em três regiões estratégicas do Estado (Centro-Sul, Capital e Região Metropolitana), do ponto de vista socioeconômico, foi revelado que essas áreas têm grandes potenciais econômicos que ainda podem ser explorados e alavancados havendo investimentos públicos ou privados. O autor da pesquisa, que foi mapeada pela agência TrenDSCE, o economista Klerinston Monte, fala em entrevista exclusiva ao A Praça, sobre os dados da pesquisa, suas características, demandas e potenciais, separadas as devidas proporções entre a capital e o interior.

A Praça – Um estudo que o senhor realizou com traços e perfis socioeconômicos da grande Fortaleza, região portuária, metropolitana e o Centro-Sul ganhou contornos detalhados da agência TrendsCE, que fez um mapeamento visando apontar fatores favoráveis a possíveis investimentos de capital externo e do poder público com a meta de proporcionar desenvolvimento? Esse estudo é de quando e qual o objetivo dele?

Klériston – Bem, o estudo é recente e passa por continuada atualização, uma vez que o conhecimento técnico das informações econômicas é uma das âncoras do Programa Avança Iguatu, programa lançado em setembro de 2019 com o total apoio da gestão municipal local, não só do Prefeito Edinaldo, da Secretaria de Governo, da Secretaria da Fazenda, mas como de toda a gestão. O Programa Avança Iguatu se constitui num conjunto de vinte ações basilares que servem de direcionamento das ações a serem desenvolvidas pelo poder público municipal na perspectiva de fomentar o crescimento econômico e elevar a qualidade de vida da população iguatuense. Suas ações são diversificadas e abrangem escopos que vão da implantação do polo gastronômico, da abertura da Sala do Empreendedor, recém-inaugurada, a constituição de relevantes parcerias com entidades significativas, como o Sebrae, Senac, Sesc, Sesi, Sine, Fiec, CDL, Sindilojas e outras entidades e desaguam no objetivo que reputo como o mais importante, neste momento – a criação de um ambiente econômico atrativo. O objetivo do estudo é exatamente esse – proporcionar aos agentes econômicos e formuladores da política econômica local o conhecimento técnico relevante e desprovido de qualquer ensejo ou conotação política – de forma que as decisões a serem tomadas pelos mesmos apresentem robustez de sustentabilidade, continuidade e conversão para o maior número possível dos habitantes do Município.

A Praça – Fortaleza e Região Metropolitana, segundo os dados do levantamento, concentram grande fatia dos investimentos públicos e privados do Estado. Enquanto isso, as outras regiões de forte tendência e potencial de crescimento socioeconômicos continuam mendigando investimentos, que quase não têm chegado. Como rever isso?

Klériston – Abordar a temática da disparidade de investimento no contexto regional é por demais ampla, todavia a verdadeira compreensão das causas que provocam tal desigualdade se fundamentam em duas condições que dificultam a chegada das inversões: a conjuntural e a estrutural. As barreiras conjunturais são aquelas momentâneas, passageiras, como a atual redução da capacidade de compra dos consumidores, provocada pelo lapso pandêmico que hoje atravessamos não somente nos Municípios, nos Estados e nos Países, mas em toda a humanidade. Já as estruturais são mais profundas, seculares, se encontram quase que enraizadas e que nos acompanham quase como se fossem nossas sombras. Se constituem nas ausências de saneamento, de mobilidade urbana, de logística, da oferta qualificada de serviços de educação, lazer, saúde, dentre outros, embora alguns Municípios da nossa Macrorregião tenham melhorado no quesito saúde, como é caso do Iguatu. Modificar a situação não é tarefa fácil, milagrosa. Se reveste de todo um processo, que vai da modificação da mentalidade dos agentes econômicos (públicos e privados), da implantação de ações pragmáticas que expressem ao investidor a existência e a garantia de um ambiente favorável ao investimento e de sua sustentabilidade. Mas a grande “sacada” para a modificação de tal quadro ainda são as parcerias e sem ela a transposição dos obstáculos tornar-se-ão mais difíceis e até intransponíveis. Quando falo parcerias, falo de maneira generalizada que podem e devem existir entre entes públicos, genuínos e entre entes públicos e privados. Iguatu hoje vivencia isso: a pujante transformação na área da saúde só foi possível com parcerias entre os entes federativos mais abastados economicamente e o Município; a instalação do Grupo Assaí e da Faculdade de Medicina são exemplos concretos de parcerias público-privadas exitosas e que irão mudar o cenário socioeconômico de Iguatu e até da região.    

A Praça – Sua pesquisa mostra que dos 13 municípios do Centro-Sul, incluindo Iguatu, Icó, Acopiara, que são municípios com as maiores concentrações populacionais, apenas Iguatu não tem dependência direta dos recursos do poder público, o que fica muito nítido em relação aos demais municípios de porte menor. Porque essa distorção ainda, de quanto mais pobre o município, maior a dependência da administração pública?

Klériston – Não darei ênfase às finanças públicas, pois resta provado que os Municípios detentores de menores capacidades econômicas e arrecadatórias, garantem as suas existências e funcionalidades quase que exclusivamente com os repasses constitucionais. O enfoque por mim dado no estudo se sustenta em três premissas meramente econômicas: a participação dos setores econômicos na formação do PIB, o comparativo do volume de empregos nos aludidos setores e o comparativo da participação do quantitativo do emprego na administração pública nos Municípios. Na Tabela 01 apresentamos a participação relativa dos setores econômicos na formação do PIB a preços correntes de todos os Municípios, para o ano de 2017. Quando confrontamos todos os Municípios relativamente ao setor serviço, verificamos que apenas Icó, com 40,93% e Iguatu com 51,61%, apresentam indicadores em que o setor serviço é maior do setor da administração pública. Em todas as demais economias a formação do PIB, a preços correntes, se dá notória e expressivamente no setor da administração, como são os casos de Baixio, com 58,46% e Catarina, com 60,37%, segundo o IBGE (2020). 

   Tabela 01 – PIB P/C em 2017, por setores em cada Município

Municípios Agropecuária Indústria Serviços Administração Impostos Total
Acopiara 11,00% 4,23% 35,73% 42,38% 6,66% 100,00%
Baixio 10,80% 3,16% 24,40% 58,46% 3,18% 100,00%
Carius 20,75% 3,39% 26,94% 44,76% 4,16% 100,00%
Catarina 8,07% 2,40% 25,57% 60,37% 3,59% 100,00%
Cedro 8,79% 3,63% 36,91% 44,53% 6,14% 100,00%
Icó 9,52% 3,82% 40,93% 39,76% 5,97% 100,00%
Iguatu 7,59% 7,03% 51,81% 22,19% 11,38% 100,00%
Ipaumirim 10,59% 5,41% 34,04% 43,99% 5,97% 100,00%
Jucás 10,57% 4,31% 35,66% 42,46% 7,00% 100,00%
Orós 15,51% 3,56% 36,05% 39,62% 5,26% 100,00%
Quixelô 18,79% 2,35% 29,73% 44,08% 5,05% 100,00%
Saboeiro 28,60% 2,11% 21,50% 44,70% 3,09% 100,00%
Umari 12,84% 3,17% 23,95% 56,72% 3,32% 100,00%
Total 10,65% 5,02% 41,40% 35,01% 7,92% 100,00%

Fonte – IBGE (2020). Elaboração própria

Outra forma de compreender tal assertiva ocorre quando analisamos a totalidade de empregos, também setorialmente falando, dos Municípios da Macrorregião e consoante alguns setores produtivos mais representativos. Segundo o IPECE (2020) e adaptação nossa, a última coluna da Tabela 2 nos mostra o total de empregos em 2016 de cada Município. Assim constatamos que Iguatu possuía, naquele ano, 14.258 empregos sendo apenas 3.601 no segmento público e 10.657 no segmento privado, ao tempo em que em todos os demais municípios a empregabilidade aconteceu exaustivamente na administração pública, como são os casos de Baixio, que possuía, à época, 417 empregos dos quais 380 eram alocados no setor público e Umari, que igualmente tinha 331 empregos, sendo 305 na administração pública.

Tabela 02 – Empregos na Macrorregião Centro Sul –  2016

Municípios Transformação Construção civil Comércio Serviços Administração pública Total
Acopiara 180 43 654 200 1.204 2.281
Baixio 0 0 22 15 380 417
Carius 40 5 84 30 552 711
Catarina 0 0 43 16 471 530
Cedro 5 9 294 149 834 1.291
Icó 176 162 942 611 3.123 5.014
Iguatu 3.402 228 4.657 2.370 3.601 14.258
Ipaumirim 78 1 85 44 589 797
Jucás 280 0 346 47 547 1.220
Orós 5 0 147 77 642 871
Quixelô 11 0 132 24 730 897
Saboeiro 0 1 50 20 972 1.043
Umari 5 0 18 3 305 331

Fonte – IPECE (2020). Elaboração própria

Finalmente, ainda nesse quesito, visualizamos na Tabela 03 a participação percentual do número de empregos na administração pública em relação ao emprego total existentes em todos os Municípios, no ano de 2016. Assim a Tabela 03 ratifica e corrobora quão as populações dos Municípios menos favorecidos, economicamente, dependem do emprego público.

Tabela 03 – Comparação do emprego na administração pública – 2016

Municípios Administração pública Total Participação da administração pública no geral
Acopiara 1.204 2.281 52,78%
Baixio 380 417 91,12%
Carius 552 711 77,63%
Catarina 471 530 88,86%
Cedro 834 1.291 64,60%
Icó 3.123 5.014 62,28%
Iguatu 3.601 14.258 25,25%
Ipaumirim 589 797 73,90%
Jucás 547 1.220 44,83%
Orós 642 871 73,70%
Quixelô 730 897 81,38%
Saboeiro 972 1.043 93,19%
Umari 305 331 92,14%

Fonte – IPECE (2019). Elaboração própria

Conclusivamente: quanto menor a economia a economia, maior a sua dependência do segmento público.

A Praça – No estudo o senhor fala que Iguatu, apesar das seguidas estiagens dos últimos anos e da escassez de recursos, o município ainda consegue encontrar maneiras de se reinventar e dar vazão a novos fluxos econômicos. O que o senhor quis expressar com esta afirmação?

Klériston– Quando me refiro às seguidas estiagens, estou falando do setor agropecuário e o setor primário do Município de Iguatu apresenta peculiaridades interessantes. Vejamos: 1°) segundo o Atlas do Desenvolvimento Humano (2010), a população iguatuense é distribuída gritantemente favorável ao setor urbano, com 77,34% e 22,66% no setor rural. Transformando para o ano de 2019, Iguatu teria 79.271 habitantes no meio urbano e 23.227 no meio rural. 2º) a Tabela 01 acima mostra a participação do setor agropecuário na formação do PIB a preços correntes e pasmem: em 2017 a agropecuária participou com 7,59%, ao tempo em que a indústria com 7,03%. Pode parecer pouco quando enxergamos Saboeiro, com 28,60%, Carius com 20,75%, contudo estamos enfatizando 7,03% de um PIB a preços correntes de R$ 1.501.965,860,00, o que daria R$ 105.588,20, sendo então, sozinho, maior do que o PIB a preços corrente dos Municípios de Baixio, Ipaumirim, Umari e não muito distante do de Catarina. Portanto, o setor agropecuário tira leite de pedra. Quanto a escassez de recursos também me reporto ao setor primário e salta aos olhos o grau de limitação de inversão dos investidores nesse setor, na medida em que o homem do campo hoje está literalmente endividado, seja através de consignados, seja através das linhas creditícias normais e caso não existisse a política assistencialista do governo federal e a participação ativa do governo municipal, a situação do setor agropecuária seria totalmente incerta.

A Praça – Os dados do IBGE mostram que o PIB-Produto Interno Bruto de Iguatu é de R$ 1,5 bilhão, ocupando a 12ª posição no Estado. Como melhor aproveitar este fator para melhorar benefícios para a população, porque, tão importante quanto ter um PIB razoável é fazer com que esse fator esteja num patamar de influência na melhoria da qualidade de vida das pessoas, né?

Klériston– Verdade, não se dimensiona o grau do desenvolvimento de um Município ou de um ente federativo qualquer pelo valor do seu PIB e sim pelos indicadores de renda, longevidade e educação. Analisar o comportamento do PIB de um ente federativo é estudar o seu crescimento econômico e o crescimento econômico denota, segundo uma ótica analítica do PIB (o da renda), que o volume da renumeração desses fatores, ou seja, a soma das remunerações (salários, juros, alugueis, lucro e etc) representam o próprio PIB. Ocorre que a distribuição dessas remunerações não são proporcionais às partes que as formam, ocasionando, destarte, a desigualdade da renda, portanto, da capacidade de consumo dos agentes econômicos. A meu juízo esse é de um dos maiores problemas vividos, não somente por Iguatu, mas por tudo o Estado brasileiro, pois 1% da sua população se apropria de próximo de 30% da renda nacional. Contudo, segundo o último Atlas do Desenvolvimento Humano, nos últimos vinte anos o Índice de Gini de Iguatu caiu de 0,62 e para 0,54, o que mostra uma queda continuada do seu valor, portanto redução da desigualdade, fato que se reflete diretamente no potencial de consumo e na capacidade de aquisição de bens e serviços, logo de qualidade de vida.   

A Praça- Na sua concepção, segundo sua pesquisa, quais são os fatores que colocam Iguatu como o grande carro-chefe da região Centro-Sul, numa perspectiva técnica e de sua visibilidade perante os demais municípios?

Klériston – Bem, os motivos que tornam Iguatu a “locomotiva” da Macrorregião Centro Sul são vários e dentre eles podemos elencar: 1º) população estimada em 2019 de 102.498 habitantes, a maior da Macrorregião e 9ª do Estado: 2º) PIB  a preços de mercado, em 2017,  no valor de R$ 1.501.965,860,00, o maior da Macrorregião e 12º do Estado; 3º)  PIB per capita de R$ 14.637,05, o maior da Macrorregião: 4º ) volume de emprego, em 2016, de 14.258 empregos, adaptação nossa, o maior da Macrorregião: 5º) número de indústrias de transformação, em 2016, totalizando 430, a maior da Macorregião; 6º) estabelecimentos comerciais em 2016, atacadistas 29 unidade e varejistas 2.392 unidades; 7°) segundo o último Atlas do Desenvolvimento no Município de Iguatu, 24,31% de sua população pertence  ao grupo dos pobres e 10,86% pertence ao grupo dos extremamente pobres, assim Iguatu, apesar de ser o Município mais populoso é o segundo com o menor índice de pobreza e o primeiro quanto ao índice de extremamente pobre; 8º)  maior polo de formador de conhecimento da Macrorregião, uma vez que no Município existe o IFCE, a UECE, a URCA, a Faculdade São Francisco, que ofertam diversas formações acadêmicas de graduações, pós-graduações e até mestrados, culminando com o próximo funcionamento da Faculdade de Medicina; 9°) maior mercado interno da Macrorregião, que além de ser detentor da capacidade de consumos dos seus habitantes, ainda é impulsionado por  um fluxo cotidiano de 325 topiques que aqui circulam e  uma circulação também diária de 2.500 passageiros, segundo a Sinart; 10º) outro indicador do pujante mercado interno iguatuense e de polo de convergência que o Iguatu se transformou é a chegada do Grupo Assaí, um dos mais consolidado no segmento atacadista do Pais, que aqui está se instalando não apenas pela parceira que existiu entre o mesmo e a gestão pública municipal, mais sim e principalmente pelo nosso potencial de consumo e impulsionar negócios.

Devo ressaltar que as informações relativas ao ano de 2017 foram coletadas no IBGE (2020), as 2016 no IPECE (2020).

A Praça – Iguatu apresenta forte tendência de mão-de-obra disponível, porém com grande massa de trabalhadores sem qualificação técnica, o que acaba inviabilizando a absorvição desses trabalhadores pelo mercado local. O que seria mais urgente para o município, em termos da oferta de cursos para melhorar esses números?

Klériston– Na minha opinião não é que a mão de obra iguatuense seja desqualificada, na medida em que quando a comparamos com o potencial laboral dos demais Municípios da Macrorregião, a nossa ainda é, inegavelmente, a mais qualificada. É claro que não podemos compará-la com Municípios como Juazeiro do Norte, Sobral, Maracanaú e outros integrantes de regiões metropolitanas. A disputada é desigual, uma vez que tais municípios formam, no seu conjunto, quase uma área de integração. O caso de Juazeiro é característico, pois quando falamos de Juazeiro, na verdade estamos falando de Juazeiro, Crato, Barbalha, ou seja, de uma economia de R$ 6.891.444.680,00, vale dizer, 4,58 maior do que a nossa e de uma população de 467.111 habitantes, ou melhor 4,5 vezes maior do que a nossa e veja que eu não estou dos Municípios da Macrorregião do cariri e sim apenas de três desses municípios. Um quadro dessa magnitude cria naturalmente um elevado nível de competitividade entre os próprios trabalhadores e os próprios investidores, na medida em que os trabalhadores menos qualificados não serão absorvidos pela demanda de emprego e os empresários que não elevarem a produtividade de seu empreendimento, não conseguirão sobreviver nesse ambiente tão competitivo. Então trabalhadores e formadores de riquezas necessitam de continuada qualificação e ciclo se repete. Portanto, reconhecemos sim a necessidade da melhoria da qualificação da nossa massa laboral, não obstante entendo que tal deficiência somente será arrefecida com ações integradas realizadas por parcerias entre o segmento público e o privado e por movimentos mais ou menos integrados da oferta e da procura no mercado de trabalho.

A Praça – Seu estudo revela um dado preocupante em relação ao percentual de atividades econômica da indústria, que era de 13% em 2012 e hoje aparece com apenas 8%. O que pode ter causado essa queda tão drástica?

Klériston – Os estudiosos seguramente iriam apresentar a ideia da desindustrialização como a causa da redução da participação do segmento industrial na formação do PIB, não só de Iguatu, mas da economia como um todo. O que existe na realidade é uma inócua política econômica governamental voltada para o setor de transformação, uma alteração brutal da funcionalidade do mercado de trabalho, um sustentáculo ideológico que enaltece a individualidade, o crescimento mais que proporcional do setor serviço nos últimos anos e finalmente o deslocamento do escopo dos investidores dos setores reais da economia para esferas rentistas. São razões, digamos gerais. Quando nos voltamos especificamente para Iguatu, alguns dos fatores acima elencados se adequam perfeitamente como causas da redução da atividade industrial no nosso município, todavia entendo que o decréscimo da participação da esfera da transformação no PIB iguatuense se dá muito mais pela ausência de um ambiente de negócio, do ponto de vista institucional e o Programa Avança Iguatu estava tratando de potencializar esse ambiente de negócio uma vez que a gestão municipal vinha, continuadamente, discutindo e buscando ações a serem realizadas pela FIEC, pelo SESI, na perspectiva da implantação da Usina do Saber, da Casa da Indústria, da Feira da Indústria, de uma escola voltada para o segmento industrial que seria aqui instalada e que hoje são ações incertas diante da total obscuridade de como será o amanhã, não somente em Iguatu, mas no País inteiro. De toda sorte a pedra angular da formação do ambiente de negócio já foi lançada e mais uma vez me curvo ao Programa Avança Iguatu, já que nele estava contida a criação e efetivação de um instrumento jurídico voltado para atração de investimento e esse instrumento hoje existe, pois o projeto de lei enviado pelo Prefeito Edinaldo foi avaliado pelos membros da Câmara Municipal e os edis, de forma unânime, tanto da base da gestão, quanto da bancada da oposição, entenderam a sua importância a aprovaram. Iguatu atualmente tem uma lei de atração de investimento voltada, na sua essencialidade, para o emprego e, tenho certeza, será um importante dispositivo que a gestão pública municipal utilizará, já que a lei foi pensada para ser uma ação de governo e não de gestão, ou seja, a gestão passa, a lei permanece.

A Praça – A chegada das águas do Rio São Francisco à nossa região, através do projeto da transposição podem provocar forte influência na economia, pelo aspecto do desenvolvimento da pecuária, piscicultura, fortalecimento de um polo produtivo hortifrutigranjeiro e a bacia leiteira, além do abastecimento das famílias que ainda têm dificuldades de acesso a água potável. As águas estão chegando, mas como viabilizar essas demandas?

Klériston – Sem dúvida a chegada das águas do Velho Chico a nossa região representa a efetivação de um sonho que nos persegue desde o período imperial, fato que tornará o Rio Jagueribe, e outros da região, perenes. Entretanto alguns questionamentos precisam ser levantados: qual a faixa marginal da área de preservação ambiental? Qual será a largura do curso d’água? Qual, efetivamente, será a disponibilidade do mais precioso insumo para o setor do segmento agropecuário? De que forma isso ocorrerá, de forma graciosa ou onerosa? Logicamente o volume de água a ser utilizado para fomentar investimentos nos estratos citados na pergunta está diretamente vinculado aos questionamentos acima enfatizados. Em outras palavras, a perenidade do rio pode significar uma oferta insuficiente da água exigida pelas esferas produtivas. Outra variável a ser conjecturada diz respeito a tarifação da água e segundo a literatura pertinente ao assunto, a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (CODEVASF), já definiu a taxação de R$ 0,801/m³ para a tarifa de consumo e R$ 0,244 para a tarifa de disponibilidade. O dispêndio pode ser pequeno, todavia a desilusão e decepção podem ser bem expressivas, quando se imaginava que o líquido seria gratuito. Não é bem a minha “praia”, mas a chegada das águas do São Francisco será por demais importante, pois provocará, gradualmente, a modificação no ecossistema, nas implicações climáticas, dentre outros e principalmente, na nossa capacidade pluviométrica, na capacidade da geração de chuva e consequentemente do armazenamento do valioso líquido, instrumento mister, não somente para a cadeia produtiva agropecuária mas, sim, para o próprio consumo humano.  Então, a meu juízo, existem diversas dúvidas e desconfianças, e espero, do fundo do coração estar errado.

A Praça – Os municípios do Centro-Sul, inclusive Iguatu, têm grandes potenciais na área do turismo religioso. Isso também foi mencionado no seu estudo. Além disso vem a forte tendência da Gastronomia, uma área que Iguatu tem grande potencial, porém sem nenhuma perspectiva de crescimento por falta de investimento. Na sua concepção, como potencializar essas duas áreas, de modo a cooperar para que Iguatu se torne ainda mais forte, gerando emprego e renda e se destacando no nível de região e Estado, como é o caso de Juazeiro do Norte, no Cariri?

Klériston – Sim, é cristalino que Iguatu detém uma significativa tendência para o setor gastronômico e a gestão pública municipal, através do seu núcleo econômico, tem conhecimento de tal peculiaridade, tanto é que dentre as ações elencadas no Programa Avança Iguatu, uma delas refere-se exatamente a aludida esfera produtiva. Neste sentido, a gestão pública municipal firmou parceria com o Sebrae, o Senac e algumas empresas do setor na perspectiva da criação do polo gastronômico e as ações começaram a ser desenvolvidas, inclusive com a realização de alguns eventos publicados na mídia, paralisadas em razão do catastrófico momento que atravessamos. A gestão também reconhece a necessidade de ampliar o raio de ação junto ao setor gastronômico, embora isonomicamente reconheça que não pode amparar todo o setor, em decorrência da incapacidade financeira. A concepção da parceria erra essa: começar com as empresas existentes no entorno na Igreja Senhora Santana e gradualmente a área iria majorando o raio de atuação, até alcançar o maior número possível de empresas dessa importante cadeia produtiva, que gera expressivo número de emprego e de renda. Pode parecer pouco, mas foi exatamente assim que ocorreu em Juazeiro do Norte e outros Municípios que hoje possuem o seu polo gastronômico: criaram uma célula, que gradualmente foi se ramificando, até alcançarem a magnitude atual. Quanto ao turismo religioso é outro segmento econômico existente em Iguatu que apresenta uma diversificação importante já que no rol de eventos religiosos temos as festas de São José, de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e da nossa padroeira Senhora Santana e o Município tem, dentro de suas possibilidades dado total apoio às suas realizações, seja na forma de colaboração pecuniária, seja na forma na forma institucional, através da Secretarias diretamente vinculadas a realização das mesmas. A assertiva de que a gestão pública municipal se preocupa e visualiza tal segmento como fomentador ao desenvolvimento socioeconômico, que o Município de Iguatu foi inserido no Projeto Rota da Fé, no Ministério da Cultura. Finalizo renovando meus agradecimentos ao Prefeito Edinaldo Lavor pelo integral apoio dado ao núcleo econômico, pela sua sensibilidade quanto à importância de ações voltadas para o fortalecimento da economia iguatuense. Igualmente agradeço ao Secretário de Governo, Dr. Tácido Cavalcante e à secretária da Fazenda, Sheila Alcântara, pela valiosa ajuda na realização das ações até então efetivadas pelo núcleo econômico, sabemos que estamos fazendo, todavia, igualmente reconhecemos que ainda há muito a ser feito.

Perfil

José Klériston Medeiros Monte é graduado em Economia pela Universidade Federal da Paraíba, Campus de João Pessoa, especialista em Metodologia do Ensino Fundamental e Médio – UVA; especialista em Gestão Pública Municipal – UECE; Professor de Matemática efetivo do Estado do Ceará desde 1988, após aprovação em concurso público; foi professor durante quase uma década no curso de Economia na unidade da URCA em Iguatu, tendo sido coordenador do curso; é um dos economistas do Município de Iguatu e coordena o núcleo econômico.

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